A pintura de Mirian de Los Angeles: uma mensagem de liberdade, de viver e de pensar
(Para ver a versão original no site da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, clique aqui)
16/12/2002
A pintura de Mirian de Los Angeles se insere na linha do abstracionismo internacional, ainda vivo nos artistas que desejam permanecer no campo da pintura e não naquele ambíguo da tecnologia. Envolvida num mundo de imagens espaciais, a sua pesquisa vem se desenvolvendo, paralelamente, dentro do espaço interior e, em termos "perceptíveis", com o espaço fenomenológico de sua visão.
Trata-se de uma espécie de dicotomia metafísica, da qual uma parte se fixa a penetrar na essência das coisas, transfigurando ou anulando o "dado natural". Outra, menos destruída pelo desejo se limita tão-somente a observar as coisas e a colocá-las em relação direta com a razão.
Quando Mirian me propôs que eu escrevesse um estudo sobre sua obra, me deparei com algumas dúvidas. Como escrever sobre alguém que não conheço pessoalmente? Como explicar sua paixão criativa e artística sem conhecer a artista? Não foi até alguns dias depois que compreendi que possuía a resposta às minhas perguntas.
A artista parece ter captado instintivamente os dois chamamentos metafísicos no fundo de sua consciência autocrítica, tanto que de uma parte motiva as razões de ordem, de clareza e de evidência cartesiana; e de outra, não deixa de lado as suas "intervenções" irracionais, que a conduzem mais confortavelmente a dilatar o seu discurso em direções polivalentes.
Conseguindo uma maior depuração dos elementos da composição, sua obra ganha em vibração e profundidade, tornando-se decisivamente abstrata, independente, qual a reverberação de uma alma sem amarras.
A artista dá muita importância à cor. Osmar Pinheiro, seu orientador, afirma que: "Mirian desenvolve uma pesquisa em pintura a partir de variações tonais. São pequenos gestos contidos que se organizam numa lógica onde o fundamento é a cor. O resultado aponta para uma rigorosa disciplina formal, aliada a uma delicada e sensível ordem poética".
Na sua extrema simplificação dialética, a pintura de Mirian de Los Angeles é percorrida de instantes sensíveis e de luzes sutis, contrastando com cores explosivas e muitas vezes se prestando a interpretações emblemáticas e oníricas. Passando da imagem simplesmente "percebida" à imagem "sentida", demonstra possuir uma clara abertura mental.
"Manchas e Cores I", obra integrada ao Acervo Artístico do Palácio 9 de Julho, demonstra sua bem articulada capacidade criativa e nos transmite uma transparente mensagem de liberdade, de viver e de pensar.
A Artista
Mirian de los Angeles Alfonso-Franco nasceu em 1960. Trabalhou 20 anos com Comunicação na área de marketing de empresas de grande porte, nacionais e multinacionais, sendo três destes anos em Madri. A partir de julho de 2001, dedicação exclusiva à pintura.
"Manchas e Cores I"
- Emanuel von Lauenstein Massarani